Radix Entomolaris: por que a tomografia computadorizada de feixe cônico é essencial para o diagnóstico dessa variação anatômica

radix entomolaris

Todo endodontista já se deparou, em algum momento da carreira, com um molar inferior que não seguiu o roteiro esperado no raio-x. Um canal que parece sumir, uma sombra estranha na região distal, uma dificuldade de instrumentação que não tem explicação óbvia. Em boa parte dos casos, a resposta para esse enigma tem nome: radix entomolaris.

Essa variação anatômica, que consiste em uma raiz supranumerária localizada na face lingual dos molares inferiores, é mais comum do que muitos profissionais imaginam e representa um dos principais desafios silenciosos da endodontia moderna. Neste artigo, vamos explorar o que a ciência mais recente revela sobre a radix entomolaris (RE) e por que a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) se tornou uma ferramenta indispensável para diagnosticá-la com precisão antes de iniciar qualquer tratamento de canal.

O que é a radix entomolaris

A radix entomolaris é uma raiz extra, localizada na porção distolingual dos molares mandibulares, descrita pela primeira vez por Carabelli em 1844 e nomeada por Lenhossék em 1922. Sua contraparte, a radix paramolaris (RP), ocupa a posição mesiobucal. Ambas podem estar separadas das raízes principais ou fundidas a elas, e essa diferenciação tem impacto direto na complexidade do tratamento endodôntico (ŠTAMFELJ; HITIJ; STRMŠEK, 2024).

Do ponto de vista clínico, a raiz extra costuma apresentar curvaturas acentuadas, o que aumenta consideravelmente o risco de degraus, perfurações e fratura de instrumentos durante o preparo do canal. Um estudo publicado recentemente relatou justamente esse tipo de desafio: casos de RE associados a canais em formato de S, que exigiram técnicas específicas de negociação, instrumentação com sistemas rotatórios de níquel-titânio e uma atenção redobrada à irrigação química para alcançar sucesso no tratamento (CHAMANI et al., 2025).

O que a maior amostra populacional já estudada revela

Um dos estudos mais completos já conduzidos sobre o tema avaliou imagens de tomografia de 1.315 pacientes eslovenos, totalizando mais de 4.500 molares mandibulares analisados. Os achados trazem informações valiosas para a prática clínica:

  • A frequência de RE no primeiro molar foi de 1,6% (contagem individual), número em linha com a média europeia, que varia de 0,7% a 4,5%.
  • No segundo molar, a prevalência foi de 1,9%.
  • No terceiro molar, a frequência saltou para 10,1%, tornando-o o dente mais frequentemente afetado por essa variação (ŠTAMFELJ; HITIJ; STRMŠEK, 2024).

Esse padrão é curioso porque contraria, em parte, a chamada teoria do campo morfogenético, segundo a qual o primeiro dente de uma série (nesse caso, o primeiro molar) tende a expressar o traço anatômico com mais força e frequência do que os dentes posteriores. A explicação proposta pelos autores é que a radix entomolaris tipo A, a variante mais estável, realmente segue esse padrão de decréscimo mesial para distal, enquanto as variantes atípicas (tipos B, C e AC) se tornam progressivamente mais comuns nos molares mais posteriores, refletindo a maior variabilidade morfológica típica dos terceiros molares.

Concorrência entre dentes vizinhos

Outro achado relevante do estudo é a correlação estatística entre a presença de RE no primeiro e no segundo molar do mesmo lado da arcada. Quando o primeiro molar apresenta a raiz extra, a chance de o segundo molar adjacente também apresentá-la aumenta de forma expressiva (odds ratio de 70,2). Isso significa, na prática, que identificar RE em um dente deve automaticamente levantar a suspeita clínica sobre o dente vizinho, reforçando a importância de uma avaliação radiográfica completa da arcada, e não apenas do elemento sintomático (ŠTAMFELJ; HITIJ; STRMŠEK, 2024).

Por que a radiografia periapical não é suficiente

A radix entomolaris costuma passar despercebida em radiografias periapicais convencionais porque a raiz extra se sobrepõe à raiz distal principal na projeção bidimensional da imagem. Isso cria um risco real de canais não tratados, insucesso endodôntico e reintervenções desnecessárias (CALBERSON; DE MOOR; DEROOSE, 2007 apud ŠTAMFELJ; HITIJ; STRMŠEK, 2024).

É exatamente nesse ponto que a tomografia computadorizada de feixe cônico muda o jogo. Ao gerar cortes axiais, sagitais e coronais do dente, a CBCT permite visualizar a real posição, curvatura e grau de separação da raiz supranumerária antes mesmo de o acesso cavitário ser iniciado. Um estudo conduzido na Turquia reforça esse ponto ao concluir que a CBCT é um método radiográfico avançado valioso para avaliar esse tipo de variação anatômica in vivo, especialmente em populações com maior diversidade étnica (DUMAN et al., 2020).

Uma revisão sistemática recente, com meta-análise de mais de 21 mil segundos molares mandibulares avaliados por CBCT, reforça essa recomendação: o conhecimento prévio da localização e da prevalência de raízes extras permite ajustar tanto o desenho da cavidade de acesso quanto a técnica de instrumentação, reduzindo erros de procedimento e aumentando a taxa de sucesso do tratamento (AL-HADDAD et al., 2025).

 

radix entomolaris
Fig. 1. Schematic representation of roots in permanent mandibular molars with radix entomolaris (RE) variants defined by Carlsen and Alexandersen (1990). In type A, the cervical part of RE is located adjacent to the distal root (distolingually). In type B, the cervical part of RE is also located distolingually, but the distal root is strongly reduced with a circular cross-section. Type C refers to teeth in which the cervical part of RE is located adjacent to the normally developed mesial root (mesiolingually). Type AC refers to teeth with RE originating from the bifurcation (midlingually), thus occupying an intermediate position in relation to both main roots. M – mesial, D – distal, Bu – buccal, Li – lingual. The arrows refer to RE. Fonte: Archives of Oral Biology 157 (2024) 105842

Implicações clínicas para o tratamento de canal

A presença de radix entomolaris exige adaptações concretas no protocolo endodôntico. Entre as principais recomendações descritas na literatura estão:

  • Ampliação da cavidade de acesso, que costuma deixar de ser triangular para se tornar trapezoidal ou retangular, acomodando a localização da raiz extra.
  • Uso de limas de conicidade reduzida (0,02 a 0,04), que oferecem mais flexibilidade em canais severamente curvos.
  • Instrumentação com sistemas rotatórios de níquel-titânio, que preservam a curvatura original do canal e reduzem o risco de degraus e perfurações.
  • Irrigação abundante e ativada, com hipoclorito de sódio e EDTA, considerando o volume, o tempo de contato e o método de ativação do irrigante (CHAMANI et al., 2025).
  • Confirmação radiográfica em múltiplas etapas, incluindo odontometria, prova de cone e radiografia final, para garantir a real extensão do preparo em uma raiz de anatomia complexa.

Vale destacar que, mesmo quando a raiz extra é identificada, complicações como a fratura de instrumentos podem ocorrer, principalmente em canais com dupla curvatura. Nesses casos, técnicas de remoção como o bypass e o uso de laço (loop technique) sob magnificação têm se mostrado eficazes para contornar o problema sem comprometer o resultado final do tratamento (CHAMANI et al., 2025).

 

O que isso significa para a gestão da sua clínica

Do ponto de vista da prática clínica diária, o principal aprendizado é simples: a suspeita de radix entomolaris deve fazer parte do protocolo de triagem de qualquer molar inferior antes do início do tratamento endodôntico, especialmente diante de sinais indiretos como uma cúspide distolingual mais proeminente, o chamado “efeito champanhe” no assoalho da câmara pulpar, ou dificuldade inesperada de instrumentação.

Investir em tomografia cone beam como parte do fluxo diagnóstico não é apenas uma questão de precisão clínica. É também uma forma de reduzir retrabalho, evitar insucessos endodônticos e proteger a reputação da clínica, três fatores que impactam diretamente a experiência do paciente e, consequentemente, os indicadores de indicação espontânea do consultório. Se você quer entender como transformar esse tipo de diferencial técnico em autoridade percebida pelo paciente e em mais indicações para o seu consultório, vale a pena conhecer as estratégias de posicionamento e marketing odontológico reunidas no Marketing em Odontologia.

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    A radix entomolaris é uma variação anatômica frequente o suficiente para merecer atenção sistemática, e complexa o suficiente para justificar o uso de exames de imagem tridimensionais antes do tratamento endodôntico. Os dados do maior estudo populacional já conduzido sobre o tema confirmam que o terceiro molar é o mais afetado, que existe correlação entre dentes vizinhos e que a morfologia da raiz extra varia conforme sua posição na arcada. Diante desse cenário, a tomografia computadorizada de feixe cônico deixa de ser um recurso opcional e passa a ser, na prática, um instrumento de segurança clínica e de qualidade assistencial.

    Referências

    CHAMANI, A.; GHARECHAHI, M.; SHAKIBA, R.; ALIPOUR, F. Management of Radix Entomolaris of Mandibular First Molar With Complex Root Canal Curvatures: A Case Report and Mini Review. Clinical Case Reports, v. 13, e70104, 2025.

    DUMAN, S. B.; DUMAN, S.; BAYRAKDAR, I. S.; YASA, Y.; GUMUSSOY, I. Evaluation of radix entomolaris in mandibular first and second molars using cone-beam computed tomography and review of the literature. Oral Radiology, v. 36, n. 4, p. 320-326, 2020.

    AL-HADDAD, A.; ALSHAMMARI, A. F.; MADFA, A. A. The Worldwide Prevalence of Radix Molaris in Mandibular Second Molars Assessed by Cone Beam Computed Tomography: Systematic Review and Meta-analysis. Journal of Endodontics, 2025.

    ŠTAMFELJ, I.; HITIJ, T.; STRMŠEK, L. Radix entomolaris and radix paramolaris: A cone-beam computed tomography study of permanent mandibular molars in a large sample from Slovenia. Archives of Oral Biology, v. 157, 105842, 2024.

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