Tomografia Cone Beam é realmente confiável para diagnosticar fraturas radiculares? O que todo radiologista deve saber

fratua radicular em tomografia cone beam

Um estudo científico mostra que nem toda tomografia oferece a mesma precisão

A tomografia cone beam odontológica revolucionou o diagnóstico por imagem em odontologia, permitindo visualizar estruturas tridimensionais que antes eram impossíveis de serem avaliadas com precisão por meio das radiografias convencionais.

No entanto, um estudo publicado no Journal of Endodontics trouxe uma importante reflexão para dentistas radiologistas e endodontistas: nem toda tomografia Cone Beam apresenta a mesma capacidade diagnóstica quando o objetivo é identificar fraturas radiculares horizontais.

Essa informação tem impacto direto tanto na prática clínica quanto na elaboração dos laudos radiográficos.


Por que diagnosticar uma fratura radicular é tão difícil?

As fraturas radiculares horizontais representam um dos maiores desafios da Endodontia.

Em muitos casos, os fragmentos permanecem perfeitamente alinhados, tornando praticamente impossível sua visualização em radiografias periapicais.

É justamente nesse cenário que a radiologia odontológica avançada passou a utilizar a tomografia computadorizada de feixe cônico (Cone Beam CT) como exame complementar.

A reconstrução tridimensional permite observar a raiz sob diversos ângulos, aumentando significativamente as chances de identificar a linha de fratura.

Entretanto, existe um detalhe importante: a qualidade do exame influencia diretamente o diagnóstico.

fratura radicular em tomografia cone beam
Figura 1. Imagens de TCFC circunferenciais: (A) amostra com fratura radicular horizontal (seta) e pino metálico, (B) amostra sem fratura radicular com imagem radiolúcida causada por artefato metálico (seta) e (C) amostra com fratura radicular horizontal (seta) sem pino metálico. (fonte: https://doi.org/10.1016/j.joen.2012.03.011)

O que avaliou o estudo?

Os pesquisadores utilizaram quarenta dentes humanos tratados endodonticamente.

Metade apresentava fraturas radiculares horizontais.

Outra parte recebeu pinos metálicos intracanais, simulando situações clínicas bastante comuns.

Posteriormente, todos os dentes foram submetidos à tomografia Cone Beam de grande volume (Large FOV) com voxel de 0,2 mm.

Radiologistas experientes analisaram os exames utilizando diferentes protocolos de visualização para verificar:

  • presença da fratura;
  • localização da fratura;
  • influência dos artefatos metálicos;
  • grau de concordância entre os examinadores.

Os resultados surpreendem

Embora muitos profissionais considerem a tomografia como exame definitivo, os resultados mostraram uma realidade diferente.

A acurácia diagnóstica variou bastante.

Nos dentes sem pino metálico, a precisão ficou entre 33% e 68%.

Nos dentes com pino metálico, houve grande variação, chegando entre 38% e 83%, dependendo do protocolo de análise utilizado.

Outro dado importante foi o baixo índice de concordância entre os próprios radiologistas.

Isso demonstra que identificar uma fratura radicular em exames de grande campo pode ser muito mais difícil do que parece.


O papel dos artefatos metálicos

Os autores reforçam que os pinos metálicos intracanais produzem artefatos capazes de mascarar completamente a linha de fratura.

Esses artefatos surgem devido ao endurecimento do feixe de raios X (beam hardening), gerando áreas radiolúcidas e distorções que podem ser confundidas com fraturas ou esconder completamente a lesão.

Para o radiologista, conhecer essas limitações é fundamental para evitar interpretações equivocadas.


A importância do Field of View (FOV)

Talvez a principal mensagem deste estudo esteja relacionada ao campo de visão (Field of View).

Os autores demonstram que exames realizados com grande volume de aquisição apresentam maior quantidade de radiação espalhada (scatter), aumentando o ruído da imagem e reduzindo a resolução espacial.

Na prática, isso significa que uma tomografia realizada para avaliar toda a face pode não ser a melhor escolha para investigar uma única raiz dentária.

Para casos endodônticos, o ideal costuma ser utilizar equipamentos capazes de realizar exames com FOV reduzido, proporcionando imagens muito mais detalhadas.


O tamanho do voxel também faz diferença

Outro fator importante é o tamanho do voxel.

Embora voxels menores aumentem a resolução da imagem, eles também elevam o nível de ruído quando associados a exames de grande volume.

O equilíbrio entre esses parâmetros deve ser cuidadosamente planejado pelo radiologista para oferecer o melhor exame possível.


Como isso muda a rotina da radiologia odontológica?

Este estudo reforça um conceito cada vez mais importante na radiologia odontológica avançada:

o sucesso diagnóstico depende muito mais da correta indicação do protocolo do que apenas da tecnologia disponível.

Não basta possuir um equipamento moderno.

É necessário selecionar:

1-Campo de visão adequado

Quanto menor o FOV, maior tende a ser a resolução para pequenas estruturas.

2-Protocolo correto

Cada situação clínica exige parâmetros específicos de aquisição.

3-Interpretação especializada

A experiência do radiologista continua sendo um dos fatores mais importantes para aumentar a confiabilidade diagnóstica.


O que o dentista deve considerar antes de solicitar uma tomografia?

Quando houver suspeita de fratura radicular, especialmente após traumatismos ou retratamentos endodônticos, vale discutir com a clínica de radiologia:

  • qual será o campo de visão utilizado;
  • tamanho do voxel;
  • presença de restaurações metálicas;
  • necessidade de protocolos específicos para Endodontia.

Essa comunicação entre clínico e radiologista aumenta significativamente a qualidade do exame solicitado.


Conclusão

A tomografia cone beam odontológica permanece como uma das maiores evoluções do diagnóstico por imagem em odontologia.

Entretanto, este estudo mostra que a tecnologia, por si só, não garante um diagnóstico preciso.

A escolha correta do protocolo, do Field of View, do voxel e a interpretação realizada por um radiologista experiente continuam sendo fatores decisivos para o sucesso clínico.

Mais do que produzir imagens, a radiologia odontológica avançada deve oferecer informações confiáveis que realmente auxiliem na tomada de decisão terapêutica.


 

Referências

  • Costa FF, Gaia BF, Umetsubo OS, et al. Use of Large-volume Cone-Beam Computed Tomography in Identification and Localization of Horizontal Root Fracture in the Presence and Absence of Intracanal Metallic Post. Journal of Endodontics. 2012. (https://doi.org/10.1016/j.joen.2012.03.011 )
  • Patel S. New dimensions in endodontic imaging: Cone Beam Computed Tomography. International Endodontic Journal.
  • American Association of Endodontists (AAE).
  • American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology (AAOMR).

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